por Eduardo França
Na minha carreira de arquiteto, a vida acadêmica e a atuação em escritório sempre foram inseparáveis. Eu sempre quis que fosse assim, mesmo sem saber o quanto uma alimenta a outra, gera inquietação: demanda absorver o que se apreende de novidade para que novas ideias surjam, para que o que se produz atinja um ponto ótimo de qualidade. Saindo do escritório, levo o conjunto de competências e conhecimentos sobre o ofício, para compartilhar com estudantes. Saindo da sala de aula, volto com pesquisas, provocações e ideias destes estudantes, para que sejam decantadas no escritório.
Numa dessas empreitadas em sala, conheci Guilherme Rocha, mais especificamente para a primeira turma para quem lecionei, no ensino superior. Logo em seguida, ele virou estagiário do Estúdio Arquitetura e não demorou para que trouxesse o Giulianno Camatta para nos conhecer. Antes mesmo de realizar qualquer trabalho juntos, as discussões sobre produção da – e para a – cidade eram a tônica, em vários dos encontros. Na década de 2010, isso ocorria com menor intensidade do que outrora nos escritórios de Belo Horizonte. Quando acontecia, porém, era importante e frutífero. Adubava o terreno das ideias para projetos e inquietações sobre como intervir no tecido urbano.
Quando os dois se formaram, a MEIUS já existia. Com Arquitetura no nome, mas como coadjuvante nas ações. Em pouco tempo, ela ganha status de protagonista. Nossos escritórios desenvolviam seus próprios trabalhos, ora com aproximações e colaborações, ora com distanciamentos, como é muito comum. E, como oportunidade, surge a ideia de dividirmos uma casa, num tempo – que parece muito distante, por conta da velocidade que o mundo ganhou – em que a palavra coworking começava a virar buzzword.
Teixeira de Freitas, 704. Este era o endereço da casa que alugamos, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte: Estudio Arquitetura, MEIUS Arquitetura e Engenharia e o Grupo SUMO, escritório montado por nós para empreendimentos imobiliários: uma maneira de testar o mercado e nossas ideias, de modo formal. Na Casa Teixeira, o encontro se tornou potente: além de compartilhar a casa, fizemos uma série de trabalhos juntos, o que me possibilitou observar o processo de construção das empreitadas que a MEIUS Arquitetura empreendeu: aqui, chamo o projeto arquitetônico de empreitada de propósito. Isso porque a parte técnica relativa ao desenvolvimento de qualquer projeto é, muitas vezes, apenas parte de um processo mais longo. Que pode envolver tanto uma ida ao mercado – o que quer que essa palavra signifique – para captar trabalhos, quanto o convencimento de empreendedores e decisores sobre levar à frente o insano desejo de construir algo.

No caso do Rocha, Giu e equipe, não existe uma fórmula para este processo, felizmente. Como tudo o que envolve a produção do espaço é complexo – desde as demandas de quem contrata, passando por todas as condicionantes locais – fórmulas são sempre armadilhas com receitas nada certas… Uma coisa, porém, sempre esteve e está presente: a inquietação.
Foi isso que fez com que a MEIUS se instalasse num projeto que, até os dias de hoje, provavelmente é o mais simbólico: a casa que ocupam na Rua Santa Rita Durão. Para desenvolver este projeto, ali estão vários condicionantes que são puro tempero no complexo caldeirão de planejar e construir: eles foram seus próprios clientes, num imóvel tombado pelo Patrimônio Municipal, com – sempre! – limitadores financeiros… E assim, como se a caminhada não fosse tão ou mais importante do que o resultado, surge um belo exemplo de como a Arquitetura é engrenagem fundamental desta máquina chamada cidade.
Na casa hoje ocupada pela Meius, a produção é dirigida pelos arquitetos como clínicos gerais, inevitável analogia com a Medicina, que procura dar conta da diversidade e escala de projetos que ali são desenvolvidos. Fato é que a tal inquietação habita este espaço que, como a cidade, foi ressignificado para que projetos e transformações dela mesma possam continuar.